segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Época de Eleições na Terra do Pau Podre

Ah! Nada como um ano eleitoral! Pessoas discutindo sobre quem será o novo prefeito, reunião em botecos com candidatos falando mais do que se deve e gráficas ganhando dinheiro para emporcalhar a cidade com panfletos.
Numa cidade pacata com o estranho nome de Pau Podre, o prefeito “Chucro” e seu séquito de Assessores Sucessivamente Nomeados e Ordenados para as Secretarias (os A.S.N.O.S., como são conhecidos os competentíssimos secretários) voltam do recesso de três anos para o árduo trabalho. Ruas começam a receber novo pavimento, projetos que estão engavetados desde as eleições passadas têm seu passo inicial dado... A mesma cena teatral vista de quatro em quatro anos.
A cidade é conhecida em toda a sua região por ter umas das populações mais pobres e carentes de todo o estado do qual faz parte. Esse povo pouco instruído e certas vezes ignorante reflete em sua Câmara de Vereadores e na Prefeitura do Município.
Como diria Malatesta no livro “O Anarquismo e a Democracia Burguesa”, o sistema representativo (as eleições em que os cidadãos escolhem alguém para representá-los no poder Legislativo ou no Executivo) apresenta grandes falhas. Estas acrescentadas a um meio onde a carência e a falta de assistência do Estado imperam, vão se multiplicando e aprofundando, tornando as eleições um verdadeiro palco de ilusões.
Quais seriam as falhas de um sistema representativo?
Para tal questão ser resolvida podemos usar o exemplo de Pau Podre para estudarmos.
A população paupodrense, assim como a de vários outros municípios Brasil afora, não dispõe de serviços que deveriam ser livres e gratuitos a todos (pelo menos assim está na nossa corretíssima Constituição, que também dá direito aos marginais saírem da cadeia para passarem o Natal com a família).
- Como assim não tem serviços!? - perguntam os A.S.N.O.S., em defesa de seu trabalho - Pau Podre dispõe de um hospital, uma maternidade e dois pronto-socorros!
Realmente a cidade dispõe de alguns serviços como: Farmácia do Povo, Hospital Geral, dois Pronto-Socorros e alguns Conjuntos de Habitação.
Por se tratar de uma localidade onde várias famílias têm uma renda média abaixo dois salários mínimos por mês, o que foi feito além de ser ineficiente, também é insuficiente. Portanto, não resolve os problemas da população.
Os vereadores e os candidatos ao cargo, sabendo dessa carência da população, começam a fazer uma política assistencialista antes da eleição para angariar votos. Atrás da neblina de sorrisos e abraços dos candidatos, surge o primeiro defeito de um sistema representativo.
Esse defeito é a ilusão que os candidatos passam ao povo. Com cestas básicas, ajuda de custo, doação de remédios (a Farmácia do Povo não dispõe de todos os remédios. Alguns só são comprados em uma farmácia comercial e os preços são absurdamente inatingíveis para um trabalhador que vive para pôr as contas em dia e não deixar a fome e a miséria se instalarem em suas casas) e promessas de emprego, eles conseguem atrair uma parcela da população a seu favor. Sem nenhuma proposta ou preocupação em trazer idéias que ajudem a dar uma melhor administração ao município, eles acabam sendo eleitos por terem suprido temporariamente as necessidades de um povo que sem assistência, devota-se à esperança da melhora e acaba sendo iludido por esmolas.
A ilusão do povo não é feita apenas pela aparência de ser uma pessoa que cuidará de sua carência.
A visão de qualquer indivíduo da sociedade um sobre um político é um homem vestido em um terno e gravata, sem nenhum sotaque, rico e instruído. Essa é a impressão que eles querem realmente passar: pais de família, homens de bem, bem sucedidos, perfeitos para ocuparem os cargos. O eleitor, ao ver o homem falar corretamente e estar bem vestido, acaba achando que aquele é o homem correto em quem votar.
Como evitar que a população mal instruída, em uma sociedade tão materialista quanto a nossa, não seja impulsionada a votar em candidatos assim? Difícil, muito difícil.
Obviamente não são todos os candidatos que serão ruins, mas a grande maioria, aquela que comandará a Câmara (lembrando que: no sistema representativo, mesmo se teu candidato for escolhido, ele não poderá fazer a tua vontade, pois mesmo como vereador, ele é uma ínfima fração junto a vários outros eleitos), será feita por homens sem propostas, sem qualquer interesse na prosperidade do município e sim em ocupar um cargo onde possa melhorar a saúde de sua conta bancária.
Já no caso dos que foram eleitos no pleito que se passou, o caso é outro. Em Pau Podre, na campanha passada, o prefeito Chucro não precisou apresentar muitas propostas para vencer as eleições.
Assim como vários outros prefeitos, governadores e até presidentes em várias nações, desde a República Federalista da Alemanha até nos Estados Unidos da América, usou-se o velho processo do continuísmo. O que seria o continuísmo?
O continuísmo, outro problema que qualquer nação democrática enfrenta, nada mais são do que os antigos projetos feitos no governo anterior e que nunca foram terminados. O prefeito vendo a proximidade das eleições começa a fazer as obras que, pelo prazo, deveriam estar concluídas.
No caso de Pau Podre, o prefeito fez um projeto de construir uma avenida ligando o sul da cidade à divisa com o município de Flor Vermelha. O Governo do Estado, incentivando uma obra de um prefeito do mesmo partido do governador, mandou dinheiro suficiente para construir uma avenida digna de uma cidade rica. No entanto essa avenida, que no projeto teria mais de seis quilômetros, não tem nem um terço do trecho total concluído.
O por quê do atraso? Desvio de dinheiro nas obras e, obviamente, falta de interesse do Senhor Chucro em fazer o serviço bem feito. Ao ver que as eleições estão próximas, o prefeito recapiou debilmente várias avenidas da cidade (que ficaram mais costuradas do que a cara do Frankenstein) e finalmente revitalizou o projeto da avenida.
O povo ao ver as obras em andamento, se esqueceu da ineficiência anterior e diz que o prefeito Chucro é um homem bom para governar a cidade. No caso do Chucro, ele não poderá ser candidato, pois já é um prefeito reeleito. Mas mesmo assim trabalha para que alguém, nem que seja seu filho, continue o trabalho porco que foi feito até então.
Esses três problemas do sistema representativo fazem com que uma cidade quase sem renda e humilde como Pau Podre fique a mercê de qualquer indivíduo que consiga a simpatia da população (seja lá qual for o método usado para tal).
Para um sistema representativo ser mais bem aplicado, tem que haver uma série de atividades em que a população teria que ter contato com a vida política do município. Algumas atividades seriam: cobrar dos seus candidatos todas as promessas feitas antes do processo eleitoral, protestos se algo fosse contra o interesse do município, visão do quanto de gasta nas obras públicas e o quanto o município arrecada em receitas...
Porém como a população paupodrense – que, em uma grande maioria não tem o Ensino Médio completo – irá conseguir exigir algo do qual não faz idéia de como funciona?
Está aí a grande questão.
Em Pau Podre, assim como em muitos lugares do Brasil, os cidadãos não têm interesse por política. Por que?
Já dizia Karl Marx no livro “A Questão Judaica” que, em uma sociedade burguesa, as pessoas pensam mais em seus direitos e acabam se esquecendo de seus deveres. O ser humano, com o passar do tempo, tornou sua liberdade individual no individualismo, se tornando egoísta e conseqüentemente não mais pensando no bem comum.
Em Pau Podre não se faz exceção. As pessoas não desenvolveram a consciência de que a política é importante, sempre se manteve o pensamento de que “todos os políticos são iguais” e que “a cidade é um lixo”, por isso tanto faz em quem votar. Se a cidade é um lixo, cabe aos cidadãos transformá-la em algo melhor. Comodismo não levará a lugar algum.
E não é só o pobre que tem essa mentalidade. Aqueles que dispõem de uma situação financeira mais saudável (os pseudoburgueses da cidade), tem uma posição não muito diferente do restante da população. Por terem um maior poder aquisitivo, a pseudoburguesia se faz à parte de tudo o que acontece no município, como se isso não fosse do interesse “real”. Curiosamente, é dessa pseudoburguesia que saem boa parte dos futuros A.S.N.O.S e candidatos.
Os candidatos pseudoburgueses são os que quase não usam a cidade para nada, pois acham que nada em Pau Podre presta (mas para ganharem um cargo é claro que o “lixo” serve). Sempre estão em cidades vizinhas para fazerem compras e só se consideram paupodrenses na época da eleição. Por terem dinheiro, a população os considera cultos e leigos (em terra de cegos, quem tem olho é rei, não é mesmo?).
Como esses candidatos podem ser de alguma valia ao município se a primeira coisa em suas mentes é morar em outro lugar? Com certeza de nenhuma valia. Mas serão eles - na maioria das vezes com outros familiares também políticos de sucesso na cidade para dar apoio na campanha - que irão angariar a maioria dos votos em Pau Podre, principalmente para o cargo de prefeito (“o homem é bão!”).
Além dos pseudoburgueses, existem os candidatos da esquerda da cidade. Essa esquerda quase não tem representatividade, tanto que só existe um candidato atualmente de esquerda na Câmara. O por quê?
A esquerda é composta tanto por alguns pseudoburgueses lunáticos pelo socialismo utópico, quanto por candidatos mais pobres, quase sem conhecimento do que é realmente ser um vereador ou prefeito. Certas vezes, candidatos são lançados sem a mínima noção do que irão fazer se forem eleitos (João do Queijo, Aninha da COHAB...) e isso dá descrédito em relação ao que a população pensa. Além do mais, por serem candidatos mais humildes, as campanhas são bem menos “requintadas” quanto à dos pseudoburgueses.
A conclusão a ser tirada a partir daí é de que não é só quem irá às urnas apenas para dar o seu voto é ignorante. Os políticos também são. O prefeito, por exemplo, lembra mais um chefe de uma secretaria de obras do que um prefeito: as únicas obras que foram feitas em seus anos de mandato são obras como ampliação de avenidas, canalização de córregos e a construção de um calçadão mal-feito. Enquanto isso, a gestão administrativa (principalmente na área das finanças), a educação, a saúde, o incentivo ao esporte... todas continuam na estaca zero.
Com todo esse estudo, chega-se a conclusão de que nesse ano de 2008, as eleições em Pau Podre, assim como em vários lugares no Brasil, não será muito diferente do que sempre foi.
O sistema representativo irá ter suas falhas novamente abrangidas e preenchidas pelos vermes da corrupção e dá má fé, povo novamente será iludido e as mesmas figurinhas carimbadas irão assumir os cargos...
Essa situação desastrosa um dia terá que ser mudada. Mas para isso, terão que ser destruídos alguns conceitos que hoje estão em alta.
O primeiro deles será o individualismo. O individualismo (a pessoa só pensar em si mesma, só em seus interesses, os outros não interessam) terá que ser destruído para que todos os membros da sociedade possam se interagir de uma maneira em que pensem em meios que gerem frutos à cidade, ao país...
Para isso ser feito, contudo, terá que ser dado o passo crucial: a conscientização da população. Essa conscientização seria um processo longo no qual a mídia teria um papel fundamental. Se a mídia é formadora de opinião, conseguirá, com uma boa programação, auxiliar a tornar o povo mais pensante. Mas isso não é de interesse da mesma, afinal a burguesia, quem a comanda no Brasil, teria seu poder questionado pelos cidadãos e por fim perderia poder.
O objetivo seria formar cidadãos pensantes, cidadãos que contestariam à realidade e não fossem adeptas ao comodismo. Lutar por seus direitos, cumprir seus deveres como cidadãos.
Esse é um processo longo, no qual a escola também teria seu papel: formar cidadãos pensantes. Em vez do lixo do nosso sistema educacional atual, teríamos que ter um sistema que os alunos saíssem da escola com algo além de uma boa informação (coisa que não temos hoje): consciência social e política. Não se faz um país sem educação, a Coréia do Sul e o Japão são bons exemplos disso e seria ótimo que o Brasil seguisse o exemplo.
Focando em Pau Podre, além da educação, teria que reestruturar também o sistema da Saúde, dos Transportes, do Planejamento, da Cultura e do Lazer... enfim, dar à cidade uma estrutura para que os cidadãos possam ter melhores condições de vida e mais opções a cultura e lazer.
Nessas eleições com certeza nada disso será feito, afinal esse é um processo longo e que levará anos para surtir efeito. Enquanto isso, os A.S.N.O.S e os incompetentes de sempre terão mais três anos de férias...