Dia normal para uma família brasileira: calor acima dos vinte e cinco graus, todos reunidos torno da televisão, como se cultuassem um deus. O pai, homem digno e trabalhador, é o presidente de uma empresa de médio porte. Ah! Nada como observar uma típica família da classe média brasileira se reunindo à noite!
Na televisão, o velho PAN-TAM: notícias dos jogos pan-americanos, ou do acidente aéreo da TAM. Diziam os críticos que o Governo estava escondendo seus podres através dos jogos Pan Americanos, – que em mais de 70% só foi usufruído pela classe média e a burguesia desse país - para que o povo esquecesse o que havia acontecido no país. Mas, o que teria acontecido afinal?
O pai, sentando-se ao lado de sua mulher, que estava claramente irritada em perder o programa de fofocas do canal concorrente, diz:
- A culpa é desse governo ineficiente!
- Mas também, queremos o que com um presidente analfabeto?- responde a mãe, arrancando um sorriso do pai.
Não desrespeitemos a opinião do nobre casal, afinal, nesse país a classe média sempre é tida como culta (come mortadela e arrota filé mignon).
Como a informação brasileira tem um formato muito próximo ao de um iceberg (só se vê o superficial, o que está nas entranhas, o que está submerso, não resolvem mostrar. Assustaria, não é mesmo?), esquecem-se os fatos que co-relacionam os acontecimentos.
O primeiro fato a ser lembrado é a posição da televisão brasileira.
A Rede Globo de Televisão foi a maior força de apoio à Ditadura Militar, que corroeu duas décadas do nosso país. A Globo, com seu padrão burguês, sempre foi direcionada à direita política do nosso país. Apoiou o Governo Collor, o Governo Fernando Henrique Cardoso (dólar a R$ 3,60, lembram-se?Além de retirar o poder governamental sobre a ANATEL, refletindo hoje nos altos preços da tarifa de telefonia)e sempre criticou o governo Lula. Então, como o Governo só passaria Pan na televisão, se a Globo quase monopoliza o horário nobre? O pobre casal se esqueceu disso!
O segundo fato é que a pista do aeroporto de Congonhas, colocada sempre como grande culpada do acidente aéreo que ocorreu há mais de um mês, não é analisada por uma empresa contratada pelo Governo Federal. O Instituto de Pesquisas Tecnológicas, do Governo do Estado de São Paulo, é quem se responsabiliza pela análise técnica da pista e dá o parecer se o solo está em condições ou não de uso.
Os jornalistas brasileiros, que entendem de bolinho de carne à cibernética, tentaram culpar o governo novamente, colocando depoimentos de pilotos nos principais jornais do Brasil. O engraçado foi ver que todos eram da Tam.
Enquanto isso, o casal continua assistindo o noticiário, descobrindo que o depoimento de um dos pilotos que havia pilotado o Airbus A320 já tinha sido dado. O conteúdo, como foi dado pela televisão, era de que o problema estava na pista de Congonhas e não no avião.
O pai, pensando no jogo do Mengão no Maracanã, se esquece que a própria Airbus havia dado um parecer de que o avião não poderia pousar em uma pista com menos de dois quilômetros de extensão. Isso em dias secos! (Opa! Congonhas não chega a ter uma pista de dois quilômetros e a chuva já havia molhado o solo paulistano). E a mãe, querendo assistir cenas do aniversário de nove anos de uma garotinha filha de uma ex-atriz pornô (que depois foi considerada Rainha dos Baixinhos!), se esquece de observar que a advogada do piloto usava uniforme da TAM. Como somos um povo em que a honestidade caminha sutilmente em nossa história, claramente não poderíamos afirmar que a advogada já havia mostrado ao piloto o que ele teria que dizer, afinal, um homem nunca perderia o emprego por dizer o que sente!
Foi ineficiência governamental? Difícil dizer, não é mesmo? Principalmente para o filho do casal, o Rei sem terra, que se preocupa mais em saber se as ondas do mar estarão propícias para o surfe amanhã, do que com o que o país será quando em um futuro próximo. Mas, assim como temos cento e oitenta e cinco milhões de técnicos, temos cento e oitenta e cinco milhões de doutores em Ciências Políticas. E, numa conversa sobre política, o nosso Rei dá seu palpite em claro e bom tom “A culpa é do governo, como podemos ter um presidente analfabeto para cuidar do nosso país!?”
Antes um asno que me carregue, do que um cavalo que me derrube!
Como o caro leitor percebeu, temos nesse humilde texto uma afirmação que se repete. “O problema do Brasil é que o presidente é analfabeto!”
Temos um presidente analfabeto? Garanto que nem o nosso presidente sabia dessa.
Afinal, como um analfabeto pode fazer um discurso muito mais decente e convincente do que o outro candidato, que passou mais de quinze anos na escola? Como um analfabeto pode fazer o melhor governo – isso não quer dizer muito quando se trata do Brasil - que esse país teve em um longo período de tempo?
Não, o nosso presidente não é analfabeto. E, mesmo que fosse, não seria problema algum. O que adianta termos um presidente que viajou para o exterior, fala inglês e foi o melhor aluno na Universidade de São Paulo, se o homem não tem visão alguma sobre o que ocorre nesse país? Teríamos outro Jânio Quadros tentando fazer São Paulo virar Londres na calada da noite! Escolaridade é algo bem diferente de cultura e de inteligência!
O ser humano tem a capacidade de aprender sozinho, senão eu não estaria usando um computador para escrever esse texto. Nossa cabeça é capaz de raciocinar e ter uma conclusão sobre um assunto sem termos que ir à escola para que alguém nos diga isso.
Dizer que um ser humano não é capaz só porque não tem um diploma é um erro. A escola nos direciona, nos apresenta desafios e nos prova. Mas isso não é o suficiente. A maior escola da vida, é a própria vida. Se todo humano dependesse de um professor para aprender sobre tudo, seríamos uma sociedade robótica, pois só iríamos reproduzir o que uma mente nos mandou fazer. Pensando bem... se formos na rua e observarmos as pessoas, parece que essa idéia não está tão absurda assim, não é mesmo?
O nosso presidente não é incapaz e nem burro. O que os cultos sempre dizem comprova isso. Oras, o brasileiro não é o povo alegre e inteligente que consegue se virar de vento e popa com quinhentos reais por mês? O presidente pode não ter sido rico em estudos, mas bem que deu uma surra no candidato do PSDB, o digníssimo Geraldo Alckmin (que até a Opus Dei pertence!), que só soube dizer em sua campanha a célebre frase: ”Vamos ampliar e melhorar.”
Quem seria o incapaz? Aquele que não estudou e venceu ou aquele que passou metade da vida na escola e perdeu? E além do mais, um médico não é melhor do que um metalúrgico como economista, agricultor, político, engenheiro...
Porém a boa família da classe média não entende isso. E, enquanto eu escrevo esse texto, o culto Rei (estuda no colégio mais caro da cidade, de alta sociedade!) está apostando corrida de carros. Esse seria um melhor presidente do que o que nós temos agora? Se partirmos do pressuposto de que só quem está na escola é bom...
A moral desse país não pode ter seus índices baixos justificados na falta de escolaridade do presidente. Há outros fatores nessa neblina.
O primeiro fator, um dos mais importantes, é que nunca no Brasil foi feito um processo de identificação com a nação.
Somos uma nação que só se enche de orgulho de quatro em quatro anos, quando colocamos a camiseta da seleção brasileira e ficamos em frente a uma televisão assistindo Kaká e Robinho pensarem em seus contratos europeus e se esquecerem da bola. Até mesmo quando foi declarada a Independência do Brasil, o nosso rei estava pensando em um dia reunir esse país a Portugal.
E esse verme nos corroeu sempre, pois a burguesia brasileira sempre manteve esse pensamento de colônia, ou seja, prefere mais o estrangeiro (no caso a “metrópole”) ao próprio Brasil. Parece mentira, mas pense melhor, caro leitor: qual é o seu país preferido? A Inglaterra e seu rock, os EUA e o glamour de Nova York, a França e La Tour Eiffel? Quantos escolheriam o Brasil? Nem naquela família de classe média, que agora assistia à novela das nove horas, teríamos um indivíduo que não sonharia morar em outro país.
O segundo ponto é...que moral o brasileiro tem? É possível se ter uma moral quando a burguesia sempre joga na cara do povo que tudo o que vem de fora é melhor que o nosso? É possível se ter uma moral quando a hipocrisia nos faz falar contra as drogas e enquanto isso nossos filhos são drogados? É possível se ter uma moral quando se sabe que a força mais poderosa do país é mais corrupta e conservadora do que o Congresso Nacional? É possível se ter uma moral quando somos todos recrutados a seguir sempre a mesma regra? Por falar em regra...que regra seria essa?
Voltemos a nossa querida família de classe média. A mãe leu na revista que comer carne faz mal aos pulmões. Pronto! A família na hora para de comer carne, pois não quer perder os pulmões. O filho viu que todos começaram andar de skate, usar cabelo com gel e ouvir a mesma musica. Explicação do Rei? “Pra catar mina, pô! E é musica de macho, não aqueles de preto, bando de retardado.” Depois disso, ele vai assistir Malhação e rir do ridículo personagem Bodão imitar de forma pejorativa uma parcela de pessoas da sociedade. Com essa visão, fica claro que a televisão e as revistas são as grandes formadoras de opinião. E com um mecanismo pequenino, quase imperceptível, manipula as pessoas: a moda.
Alguém aí se arriscaria a usar listrado com xadrez? Ou então um homem vestir um vestido? É errado? Pelas tradições e pela moda sim. Listrado e xadrez não combinam e vestido é coisa para mulher... mas não veste um e outro da mesma maneira?
Além da moda, também citemos a hipocrisia. Nos jornais lemos que o Brasil é um dos países com menores índices de preconceito? Seria verdade? Não.
A sociedade brasileira é totalmente preconceituosa. O pai daquela família proibiu o namoro do filho porque a garota era negra. Além de exclamar a plenos pulmões que foi um bando de índios que havia pichado o centro da cidade na noite passada, mal o nosso senhor sabia que o filho dele era um dos possíveis “índios”.
Não percebemos, mas a todo instante cometemos algum tipo de preconceito. Alguns, de mente bitolada, dizem: “eu não tenho preconceito”. Mas é só ver um carro pintado com uma cor muito vibrante que logo diz: “Que carro de baiano!”
Como um povo que quer ter moral pode ter preconceito com seus próprios irmãos e no preconceito racial, contra seu próprio sangue – e nem venham os “negros” se fazerem de coitados, pois há muito preconceito racial nesse lado da história também - e contra seu próprio povo?
Além do mais, a juventude da qual faz parte o Rei e todos aqueles entre 15-20 anos, assistia uma atriz pornográfica ser considerada a Rainha dos Baixinhos no país. cantavam e dançavam as musicas dela, com incentivo dos pais! Aí de noite, esses mesmos pais, assistem o jornal das 20:30, que costumava ser apoio para o Regime Militar e hoje se diz “democrático”. Cristo é a mesma coisa que corinthiano ver que o São Paulo está em alta e dizer que agora torce pro São Paulo!
Essa é a moral do brasileiro! Esse é o nosso jeito de viver! Viva o país que vive de rebolados e de uma mídia controladora! Viva a nossa juventude, muito pensante, filosofando se o professor faz o que é certo ou não! Viva as classes dominantes, que são tão inteligentes e cultas que em 500 anos não conseguiram fazer o país avançar três centímetros.
Por fim, a conclusão sobre o presidente é a velha frase: antes um asno que me carregue, do que um cavalo que me derrube!
E então... a família vai dormir, para amanhã um novo dia nascer e tudo o que hoje foi feito e preparado, amanhã não seja continuado...
by Rodrigo Almeida
domingo, 9 de setembro de 2007
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Um comentário:
muito bem pensado, concordo contigo, parabéns
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